By Izabella Camargo
Produtividade sustentável: se sobrecarregar por amor ao trabalho é um erro

O conceito criado pela jornalista Izabella Camargo mostra que o mito do “eu dou conta” só prejudica a saúde mental. Aprenda a ser sustentavelmente produtivo

Consumo sustentável, desenvolvimento sustentável, economia sustentável… Quantas vezes você já ouviu a ideia de sustentabilidade? Impossível saber, certo? Em alguns contextos o equilíbrio entre disponibilidade e exploração de recursos é tão utilizado que o termo nem causa mais tanto impacto. Mas, na essência, uma ação sustentável é uma ação consciente. Então, se queremos um planeta ecologicamente duradouro, já passou da hora de pensarmos na forma como estamos trabalhando – de pensarmos na “nossa” produtividade sustentável.

O que é a produtividade sustentável?

Parece simples demais ou deveria ser, mas produtividade sustentável é a capacidade de trabalhar sem causar danos à saúde e aos relacionamentos. Na prática é não apelar para remédios, anestésicos, estimulantes – exemplos de combustíveis insustentáveis – e não deixar o estresse e a falta de tempo desencadearem comportamentos agressivos e outros desequilíbrios emocionais que vão deixando nossas relações mais confusas e difíceis.

Porém, sem ocupar seu tempo com estatísticas, pela quantidade de farmácias nas esquinas da maioria das cidades do país, você acha que as nécessaire de remédios estão ficando mais vazias ou mais cheias? Levando em conta as pessoas que você conhece, as atividades de fora e de dentro do trabalho estão em equilíbrio ou você sente que há um descompasso na agenda?

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Antes da pandemia já éramos o país mais ansioso do mundo , o segundo mais estressado e a depressão já configurava entre as três principais causas de afastamento no trabalho. A síndrome de burnout também pode nos tirar de cena e já atinge mais de 30 milhões de brasileiros. Para mim, esses números já são suficientes para percebermos que tem algo errado e que o estilo de vida de muitos profissionais está equivocado, insustentável. Por isso, iniciei o movimento pela produtividade sustentável em 2020. Percebi que estamos normalizando o anormal, negligenciando consequências perigosas para nossa saúde, quando não paramos para pensar em como estamos produzindo.

Então, me diga, a forma como você está trabalhando é sustentável? É saudável por quanto tempo?

Se você ama o que faz e quer continuar fazendo o que ama sem afetar sua vida de maneira nociva, você vai precisar pensar e agir considerando a sustentabilidade da sua produção. E mesmo que você ainda não ame o que faz, mas quer ter saúde para procurar um trabalho que ame, você também precisa viver um estilo de vida sustentável. Senão, felicidade e longevidade não passarão de ilusão.

“O excesso de confiança que temos de que ‘daremos conta, custe o que custar’ pode te fazer parar na carreira

Pense nas consequências das suas ações

O que está em jogo na produtividade sustentável é a consciência das consequências de suas ações para a manutenção diária da sua saúde, para a continuidade de seus desejos profissionais e pessoais, sem ter interrupções como a que eu tive com a síndrome de burnout, ao ultrapassar meus limites, me inspirando naquela heroína feminina que usa um maiô azul e vermelho.

O excesso de confiança que temos de que “daremos conta, custe o que custar” pode te fazer parar na carreira, da mesma maneira que ficamos pelo caminho em uma estrada quando não paramos para abastecer o tanque do carro acreditando que “vai dar pra chegar”.

A produtividade sustentável é um convite para você refletir sobre seus comportamentos a partir da atualização de identidade, considerando quem é você hoje, e não quem era no início da carreira ou com as condições de saúde do passado. Se você não parar voluntariamente para analisar seu estilo de vida e para ajustar seu ritmo de trabalho, pode ser que tenha que fazer isso quando a saúde enviar mensagens mais drásticas em que terá que parar de forma involuntária.

A mudança está nas suas mãos

Ninguém poderá atualizar sua identidade por você. Nenhuma empresa ou departamento. Quando você perceber suas características e necessidades atuais, você terá mais clareza sobre os ajustes que precisa fazer na sua rotina para seu autocuidado, aquilo que só você pode fazer por você, o único combustível sustentável para o motor da vida, e que será essencial para continuar desempenhando seus papeis com entusiasmo e sentido.

As perguntas principais da atualização de identidade estão relacionadas ao sono, respiração, alimentação, exercício físico e momentos de lazer, condições essenciais que vamos negligenciando quando não nos incluímos na própria agenda. Conforme você for se interessando mais por você, esses questionamentos podem chegar em outras áreas que te ligam a vida, mas que estão sendo negligenciadas. Identificando suas necessidades do presente, ficará mais fácil abandonar os comportamentos tóxicos que podem comprometer a saúde mental. Tema do nosso próximo encontro!

* Izabella Camargo é jornalista, palestrante, autora do best-seller Dá um tempo! Como encontrar limite em um mundo sem limites. Instagram: @izabellacamargoreal

Entenda por que dizer não é o novo sim

Aceitar tudo o tempo todo pode até fazer com que as pessoas gostem de você, mas é uma armadilha com alto potencial de risco para sua saúde mental

Sim, você leu certo. De todas as habilidades que precisamos desenvolver nestes novos tempos, dizer não é uma das mais importantes. Isso não significa sair falando não para tudo e para todos, mas saber reconhecer quando e para quem um não exercerá o papel de filtro e será positivo. Quando o não para alguém garantirá o sim pra você.

Antes de continuar preciso saber se você já travou na hora de dizer não. Seja para um convite familiar, de amigos ou no trabalho. Eu sempre tive muita dificuldade, mas comecei a treinar o não depois de compreender que ao dizer sim o tempo todo pode até ser que as pessoas gostem de você, mas não significa que te respeitem. Mais do que isso, entendi que a autoestima baixa também contribui para essa insegurança.

Vamos por partes. Três, na verdade.

  1. O medo do julgamento

A primeira é te contar que não estamos sozinhos. Muitas pessoas evitam dizer não pelo medo do que os outros vão pensar e porque acreditam que o não é apenas negativo. Na infância ouvimos muitos nãos de pessoas que queriam nos proteger e essa palavrinha de três letras acabou carregando muito desapontamento. Depois, na escola e na faculdade, vamos dizendo sim para todos os convites porque queremos ser aceitos, pertencer aos “grupinhos”. No início da carreira ou de algum projeto também vamos aceitando tudo e dizendo um sim atrás do outro para mostrarmos nosso serviço, nosso valor. Porém, chega uma hora em que o não precisa entrar em jogo, senão o tempo parecerá sempre insuficiente: você não terá espaço na própria agenda e com isso poderá adoecer. Sim.

Foi o que aconteceu com a jornalista Carol Sandler, de 37 anos. De tanto dizer sim nos últimos nove anos começou a ter crises de ansiedade e problemas de insônia durante a gestação e teve que parar tudo o que fazia para o rádio e a internet. Produzia muito e vivia pouco. Estava vivendo a síndrome de burnout.

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Desde 2012 quando criou o portal de notícias Finanças Femininas, ela estava em um ritmo de muita prosperidade, mas insano. Trabalhava aos fins de semana, feriados, nas férias em família e não tinha momentos de pausa, não descansava mesmo depois de dias de muito desempenho.

“Era como terminar uma maratona e continuar correndo. Sempre tive muita dificuldade em dizer não. Eu quero ajudar as pessoas, quero apoiar. Encarava cada convite e proposta como uma pedrinha que eu estava colocando no meu crescimento profissional. Eu me sentia na obrigação de dizer sim para tudo e para todos,” relembra.

Entendo a Carol. Quando a gente ama o que faz fica mais difícil dizer não para mais trabalho. Aliás dizer não para o que a gente não quer já é difícil, imagine dizer não para o que a gente quer? Quando ela parou para listar todas as tarefas que tinha, viu que estava vivendo uma produtividade insustentável.

“Foram quatro meses para tomar a decisão profissional mais difícil da minha carreira. Tive a sensação de estar deixando o mundo inteiro na mão. Antes de parar tive muitas objeções e senti medo pelas responsabilidades do meu negócio. Sempre vi um senso de propósito muito grande no que eu faço. Mas eu só aprendi a dizer não e a colocar limites quando ficou claro pra mim o mal que tudo aquilo estava fazendo para o meu corpo, para a minha bebê e para a minha família. Agora eu me sinto em paz com a decisão.”

Mesmo sendo uma profissional excelente, Carol teve medo de ser julgada, de perder a credibilidade e a reputação de tudo o que havia construído, mas a saúde já estava no limite e não tinha mais escolha.

  1. Negar é positivo

E é aí que eu entro na segunda parte. Ficamos com tanto receio de dizer não em algumas situações que esquecemos que ele também é positivo, educativo, libertador e preventivo. Negligenciamos tantas pausas voluntárias que acabamos tendo que viver uma involuntária.

A boa notícia, e eu sempre gosto de dar boas notícias, é que podemos aprender novas maneiras de encarar os velhos problemas, podemos mudar de comportamento.

Com o excesso de acessos, telas, contatos, oportunidades, informações, cursos, se você não souber dizer não, vai sobrecarregar seu cérebro e viver um presente estressante. O não é seu filtro, seu protetor e terá de entrar em cena o tempo todo, de domingo a domingo, inclusive.  É como um músculo que precisa ser exercitado. No começo dói, provoca insegurança, chega até a dar preguiça, porém, depois que você perceber os benefícios do não consciente, responsável, sem culpa, vai insistir mais nessa habilidade.

  1. Dizer não requer treino

E assim chegamos na terceira e última parte desse nosso encontro: quem nunca falou francês, por exemplo e quer ser fluente vai ter que treinar, não vai? Assim é com o não. Você pode começar a treinar com os pequenos nãos até chegar nos grandes nãos. Experimente treinar os pequenos nãos em situações corriqueiras com amigos de confiança, com o parceiro ou parceira. Depois dessas experiências você terá mais repertório e segurança para os grandes nãos, aqueles que podem gerar impactos na sua vida, ou não porque você já saberá se valorizar e preservar seu tempo e sua saúde.

Sugestões para praticar o não

1. Inclua palavras mágicas antes do bendito

“Por enquanto não”, “Hoje não consigo”, “Essa semana não tenho como assumir esse compromisso” são alguns exemplos.

2. Faça perguntas

Quando posso dar a resposta? Mais alguém pode me ajudar nessa tarefa? Se não agora, quando poderei participar?

3. Use sempre a comunicação não violenta

Primeiro agradecendo os convites ou o trabalho, mas dizendo que não pode aceitar se realmente não tiver condições físicas, mentais ou se não tiver tempo mesmo. Importante: quanto menos argumentos melhor. Nem sempre quem ouve um não tem os mesmos valores e prioridades que você. Só você sabe dos seus compromissos.

Se ainda não te convenci a pensar em treinar o não para o bem da sua própria saúde, quantas vezes você disse sim e se arrependeu? Pois é.

Pensamentos organizados, clareza de agenda, planejamento financeiro e consciência das consequências das próprias ações também ajudam a dizer não.

O não é seu aliado para escolher o que fazer com o seu tempo e sua saúde. Para escolher bem você vai ter que se conhecer bem. Aí entra uma etapa muito importante da produtividade sustentável: a atualização de identidade. Tema do nosso próximo encontro. Até lá!

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